“A pérola vermelha”

O Luís tem 12 anos. O Luís tem 12 anos e é uma criança feliz. O Luís tem 12 anos, é uma criança feliz e hoje vai ver o Benfica.
“é uma criança feliz e hoje vai ver o Benfica”
O amor do Luís pelo Benfica é tão grande como o areal da Costa da Caparica. Da sua Costa.
É maio, está aquela aragem matinal e, ao longe, os pescadores despejam os peixes intermitentes. O Luís e o pai, o Guilherme, estão de olhos presos no mar que vai e vem. Hoje joga o Benfica e o Luís está contente.
Hoje joga o Benfica
O Luís gosta destas manhãs de domingo com o pai. Por eles passam o Maninho, o divertido banheiro que tem sempre uma resposta pronta, o Sidónio, antigo campeão do mundo, e a dona Isabel, uma filha da terra. Todos conhecem o Guilherme, todos o respeitam e é tão bom ser filho do pai.
– O meu último jogo foi há 10 anos, Luís. Marquei quatro golos, quatro golos. Ganhámos…
– Quatro golos, pai?
– Quatro golos, sim. Eu e o Pipi. Quatro golos cada…
– Tens saudades?
– Hoje jogamos com o Covilhã. Temos de dar a volta, isso é que interessa.
– Tens saudades, pai? Eu nunca te vi jogar mas o senhor Alcides, do Papo Seco, diz que tu eras tão bom como os maiores.
– Tenho saudades de ouvir os gritos quando entrávamos em campo, quando atacávamos, quando marcavámos. Sim, tenho. Tenho saudades de nunca ter marcado um golo para ti. De nunca ter jogado no novo Estádio da Luz. Talvez. Mas sabes que o Benfica não para e hoje temos o Coluna e o Águas e ainda vamos ter muita coisa boa para celebrar.
Silêncio.
O mar da Costa vai e vem e não tarda nada serão eles a ir para Lisboa. Hoje é domingo, é domingo de jogo, domingo de Taça de Portugal e hoje eles vão ao estádio. O Luís vai vestir a camisola do pai, fica-lhe grande mas é bonita. É tão vermelha. É vermelho Benfica. O Luís tem 12 anos e é uma criança feliz. O Luís é filho do Guilherme, o Luís é filho do Benfica. O Luís é cada um de nós que vê o mar, o rio, o campo, as montanhas e em qualquer lugar vê o Benfica em tudo. Em qualquer lugar, vestimos a camisola vermelha, e ela é tão vermelha, que fica tudo tão mais bonito.
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Nos 100 anos de Guilherme Espírito Santo (1919-2019)

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