“Com Bruno Lage no comando, o Benfica volta a praticar futebol decente”

No primeiro Artigo à Benfica produzido por mim neste ano de 2019, externei o sentimento que homogeneizou a nação benfiquista: a tristeza pelo trabalho do técnico Rui Vitória. Mesmo tendo se reforçado bastante para a temporada 2018/2019, o elenco não se apresentava à altura dos nomes dos quais dispunha. Pior: não dava sinais de melhora. Chegou-se a um ponto no qual os adeptos tinham raiva de ver o time jogar. Não era aquele o Benfica pelo qual nos apaixonamos.
“Chegou-se a um ponto no qual os adeptos tinham raiva de ver o time jogar”
Por coincidência do destino, Rui Vitória foi demitido do cargo na noite daquela quinta-feira, 3 de janeiro. Não resistiu à derrota de 2 a 0 para o Portimonense, decorrida em Portimão no dia anterior, pela 15ª jornada da Primeira Liga de Portugal. Foi triste ver um treinador bicampeão da I Liga e da Supertaça e campeão da Taça de Portugal e da Taça da Liga sair desta maneira, porém os fatos assim se sucederam porque ele não fora racional o suficiente para admitir que não conseguia extrair mais nada do plantel. O mentor do Benfica B, Bruno Lage, assumiu interinamente a vaga.
“ele não fora racional o suficiente para admitir que não conseguia extrair mais nada do plantel”
O timing da diretoria para a decisão foi péssimo, ao ponto de Lage ter tido somente dois dias de contato com o grupo antes do compromisso com o Rio Ave, agendado para o domingo (6), no Estádio da Luz. Avaliar o trabalho em um primeiro momento, para o bem ou para o mal, seria arriscado, talvez injusto. De qualquer forma, a expectativa em torno do novo comandante era alta, pois as referências acerca dele eram muito boas – daqui a pouco chegaremos lá. Em seu trabalho mais recente, os “Bês” das Águias estavam na quarta colocação da Segunda Liga de Portugal e, portanto, vinham de excelente campanha.
“tido somente dois dias de contato com o grupo antes do compromisso com o Rio Ave”
O início daquele Benfica x Rio Ave deu muita dor de cabeça… Com 20 minutos de bola rolando, o placar já apontava 2 a 0 para os vilacondenses. Mesmo com tamanha adversidade, os jogadores da casa demonstraram uma saúde mental impressionante e buscaram os três pontos. João Félix e Seferovic, com dois gols cada, sentenciaram a reviravolta.
Na rodada seguinte, a 17ª da Primeira Liga, os Encarnados pegaram o avião rumo ao Arquipélago dos Açores, onde não tomaram conhecimento do Santa Clara e venceram por 2 a 0, com gols de Seferovic e Jardel. A contagem não foi maior porque o time perdeu um caminhão de gols. Depois daquele jogo, e contrariando rumores da imprensa que iam de Jorge Jesus a José Mourinho, a diretoria benfiquista bateu o martelo e efetivou Bruno Lage. Ele está garantido até o final da temporada, podendo renovar o vínculo. De lá para cá vieram mais três vitórias. De início, duas de 1 a 0 contra o Vitória de Guimarães em pleno Estádio Dom Afonso Henriques, sendo uma pelas quartas de final da Taça de Portugal e a outra pela primeira jornada do returno da Liga, com respectivos registros de João Félix e Seferovic. Por fim, uma goleada de 5 a 1 diante do Boavista, em Lisboa, no 19º compromisso pelo campeonato, assinada por Seferovic (duas vezes), João Félix, Pizzi e Grimaldo.
“A contagem não foi maior porque o time perdeu um caminhão de gols”
A primeira derrota veio na semifinal da Taça da Liga: 3 a 1 para o rival Porto, em jogo marcado por polêmicas envolvendo a arbitragem. O juiz Carlos Xistra validou dois gols contestáveis do Porto, colocou em xeque uma bola na rede legítima do Benfica e anulou equivocadamente outro gol encarnado mesmo tendo o VAR à disposição. Logicamente, todos os seguidores do Glorioso ficaram chateados com o resultado… Todavia, há de se considerar as condições – no mínimo – adversas e de tirar como fato positivo a postura da equipe, a qual visou o ataque e não desanimou com a desvantagem em momento algum.
“visou o ataque e não desanimou com a desvantagem em momento algum”
Não enxergando apenas os resultados construídos ou os adversários tradicionalmente difíceis de serem superados: também devemos considerar o futebol jogado pelo time da Luz atualmente. Não existe mais aquele Benfica que apostava exaustivamente no chutão, abusava do chuveirinho na área, deixava espaços, dependia demais das individualidades dos seus jogadores, conseguia a proeza de se retrair contra oponentes tecnicamente inferiores e ficava apavorado quando sofria gol. O Benfica toca a bola de pé em pé, explora mais o meio-campo, faz pressão alta quando o oponente tem a bola – até os atacantes ajudam na marcação – e tem estilo de jogo intenso. Passou de um 4-3-3 focado em investidas nas laterais e passes longos para um 4-4-2 mais dinâmico e muito agradável de se ver.
“O Benfica toca a bola de pé em pé”
Além disso, o Glorioso não apenas ganhou um treinador, mas também um líder: “Quando fui apresentado, senti no olhar dos jogadores que eu seria o líder deles. É algo que acontece de forma muito natural. Neste momento de transição de trabalho, é importante nos sentirmos confortáveis e passarmos uma imagem de entrega e de motivação. É muito importante reconquistar o público”. Foram estas as palavras do comandante em entrevista coletiva após a vitória de 4 a 2 diante do Rio Ave. A torcida foi reconquistada, podem ter certeza.
Bruno Lage já escreveu dois livros e tem passagens por times do interior de Portugal, pela base do Benfica e por clubes do Oriente Médio e da Inglaterra
Bruno Miguel Silva do Nascimento, que adotou o sobrenome Lage em homenagem ao seu pai, Fernando Lage, nasceu na cidade de Setúbal a 12 de maio de 1976. A carreira deste jovem profissional de 42 anos é mais extensa do que você pode imaginar.
Licenciado no curso de Educação Física, Saúde e Desporto, com especialização em futebol, Lage começou no Estrela de Vendas Novas. No clube da região do Alentejo, trabalhou na condição de preparador físico do técnico José Rocha e conquistou o acesso à segunda divisão nacional e a manutenção no escalão. Depois rumou ao Fazendense, agremiação de Fazendas de Almeirim, distrito de Santarém, onde auxiliou o seu mentor, Jaime Graça, durante oito meses. Sua primeira experiência como treinador de linha de frente se deu no Comércio e Indústria. No escrete da região de Setúbal, já era considerado um profissional “com métodos diferentes do habitual” e “muito respeitado pelos atletas”, com quem “fez grandes amizades”, recorda o massagista João Catalão em entrevista ao jornal Diário de Notícias.
Lage foi convocado para as categorias de base do Sport Lisboa e Benfica em 2004 e viu a sementinha do Seixal ser plantada e germinar. Treinou todos os escalões – da escolinha até os juniores – e viu jogadores como Bernardo Silva, Gonçalo Guedes, Ederson, André Gomes, João Cancelo, Rony Lopes, Ivan Cavaleiro e Hélder Costa crescerem.
Um dos atletas com quem trabalhou, o atacante Sancidino Silva, que passou por Benfica B, Arouca e Leixões e atualmente está no clube suíço Lausanne, não economizou elogios a quem descreveu como “rei das táticas” e cuja maior qualidade apontada foi a ambição pelo jogo bonito e pelas vitórias. “Com ele tudo parecia fácil. Gostava de um futebol de profundidade, de transições. Costumávamos ver os jogos do time principal e depois ele pedia aos jogadores para fazerem uma análise. Víamos o que havia sido bem feito e mal feito para, a partir daí, tentarmos melhorar”, disse ao Record.
Em 2012, abatido pela morte de Jaime Graça, Bruno Lage decidiu respirar novos ares e foi auxiliar o compatriota e amigo Carlos Carvalhal no Al-Ahli Dubai, dos Emirados Árabes Unidos, e, posteriormente, no Sheffield Wednesday, da Inglaterra, e no Swansea City, do País de Gales. Foi com Carvalhal que o atual treinador do Benfica escreveu o livro Futebol: Um Saber sobre o Saber-Fazer, publicado em 2014, obra a qual reflete a união entre a teoria e a prática no futebol. Três anos depois, lançou Formação: da Iniciação à Equipe B, onde trata sobre o desenvolvimento de jogadores das mais variadas faixas etárias.
O retorno ao maior clube de Portugal aconteceu em 2018. Dessa vez, o desembarque era para a Equipe B, de modo a substituir Hélder Cristóvão, que aceitara o desafio de ser dirigente do clube saudita Al-Nassr, onde hoje está Rui Vitória. Já o ano de 2019 começa com o enorme desafio de treinar o elenco principal. Ainda assim, ele não deixa os “miúdos” de lado. Na última quarta-feira (30), acompanhou, no Caixa Futebol Campus, a vitória de 3 a 1 do Benfica B diante do penúltimo colocado Arouca, pela 19ª rodada da II Liga – Chris Willock (duas vezes) e João Filipe fizeram os gols. Atualmente treinados por Renato Manuel Alves Paiva, os “Bês” estão em terceiro lugar no certame.
Recentemente, em conferência de imprensa, na antevisão ao duelo com o Boavista, o meio-campista brasileiro Gabriel foi enfático ao comparar o estilo de trabalho de Lage ao do antecessor. “Estamos física e psicologicamente preparados para os jogos que vêm por aí. Cada treinador tem a sua maneira de trabalhar, cada um faz o que acha melhor para o time. Acho que o fator diferencial no momento é a intensidade dos treinos”, afirmou.
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Luís Francisco Prates é jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e autor do livro-reportagem Clube Náutico Capibaribe: Vermelho de Luta, Branco de Paz. Foi blogueiro do Sport Lisboa e Benfica no portal ESPN FC Brasil.
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