” Dos gramados para a eternidade”

Dos gramados para a eternidade: 15 anos do último sorriso de Miklós Fehér

O ano de 2004 era aguardado com muita expectativa pela torcida do Sport Lisboa e Benfica. Afinal, tratava-se do ano do centenário do clube. A transição do segundo para o terceiro milênio foi uma época de vacas magras para os Encarnados, é verdade, porém um benfiquista autêntico tem na alma a chama imensa e nunca se encolhe diante das adversidades. Carregar a águia ao peito é motivo suficiente para se entusiasmar, seja lá qual for a fase dentro das quatro linhas. Contudo, há momentos nos quais nossa condição humana nos impõe um tremendo choque de realidade. Foi o que aconteceu em 25 de janeiro daquele ano. Nesse dia, uma parte de cada torcedor do Benfica se foi quando o atacante húngaro Miklós Fehér nos deixou em pleno gramado do Estádio Dom Afonso Henriques, nos minutos finais do duelo frente ao Vitória de Guimarães, válido pela 19ª rodada do Campeonato Português. Nessas horas cai a ficha: a vida é um sopro.
Aos 45 minutos do segundo tempo, o volante Fernando Aguiar anotou o gol do triunfo do emblema lisboeta. Deveria ser motivo de festa, pois vencer o Vitória Sport Clube no Norte sempre é missão complicada. Mas, dois minutos mais tarde, o planeta testemunhou um dos momentos mais tristes da história dos esportes. Ao ser advertido pelo árbitro Olegário Benquerença com o cartão amarelo por retardar o andamento da partida, o atleta de apenas 24 anos de idade sorriu ironicamente, sentiu-se mal, pôs as mãos nos joelhos e caiu. Faleceu em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. Estava em campo desde os 14 minutos da etapa complementar, quando foi acionado pelo técnico José Antonio Camacho para substituir João Pereira. É impossível esquecer o último ato do camisa 29… Foi o pior minuto 92 dos adeptos do Glorioso. E já faz 15 anos!
Nascido em Tatabánya, noroeste da Hungria, a 20 de julho de 1979, “Miki”, como era conhecido, foi revelado pelo Gyôri ETO, agremiação do seu país de origem, e fez carreira no futebol português, onde também vestiu as camisas de FC Porto, Salgueiros e Sporting Braga. Estava caminhando rumo ao terceiro ano no clube da Luz, onde chegou depois de excelente retrospecto no Braga, com 14 gols em 26 jogos entre 2000 e 2001, e era apontado como joia do futebol húngaro, que até hoje vive longa saga para retomar o protagonismo no futebol mundial.
De águia ao peito, anotou oito gols e esteve presente em 37 jogos. Bom aproveitamento para quem não era titular e disputava posição com nomes mais consolidados como Sokota e o emblemático Nuno Gomes. Pela seleção magyar, a mesma onde craques como Ferenc Puskás, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik e Gyula Grosics se consagraram como ídolos e encantaram a Terra, Fehér entrou em campo em 25 oportunidades e balançou as redes sete vezes.
Infelizmente sua carreira foi curta e teve um triste fim. O falecimento foi confirmado às 23h10 em Portugal continental e às 21h10 no Horário Brasileiro de Verão pelo diretor clínico do Hospital da Senhora da Oliveira, Fausto Fernandes, em Guimarães. Já o sepultamento ocorreu em Tatabánya, sua cidade natal. Por outro lado, Fehér está eternizado no coração de cada benfiquista. Morreu fazendo o que mais gostava: jogar futebol. E partiu à Paz Celestial sorrindo. Em justíssima homenagem, o número utilizado pelo húngaro foi aposentado pela agremiação mais vitoriosa de Portugal.
Pouco mais de 11 anos depois do lamentável ocorrido, no mesmo palco onde o atacante sorriu pela última vez, o Glorioso empatou sem gols com o Vitória de Guimarães, pela penúltima jornada da temporada 2014/2015, e se sagrou campeão nacional pela 34ª vez. Quem tem fé não titubeia em assegurar que “Miki” mandou energias positivas lá de cima e teve participação determinante nessa conquista – e também nas outras. Quando daqui partimos, deixamos um legado a quem fica. E o legado de Miklós Fehér foi o seu benfiquismo. O Sport Lisboa e Benfica perdeu um jogador promissor, mas ganhou um embaixador no Céu. Muito obrigado e até sempre, Eterno 29!
Crédito da Foto 1: NurPhoto/Getty Images
Crédito da Foto 2: Adam Davy/EMPICS/Getty Images
Luís Francisco Prates é jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e autor do livro-reportagem “Clube Náutico Capibaribe: Vermelho de Luta, Branco de Paz”. Foi blogueiro do Sport Lisboa e Benfica no portal ESPN FC Brasil.
 
Twitter: @luisf_prates
Instagram: @luisf_prates
Medium: /@luisf_prates
Facebook: /luisfrancisco.prates 

Comentários