“Eterno derby, eterna Lisboa!”

Há jogos que são intemporais! Neles ao longo dos anos vemos misturados factores como a história, tradição, paixão, fervor e até o inexplicável sentimento de pertença á nossa cidade ou região. Naturalmente que já chegaram á conclusão que estou falar no derby da capital, o jogo que mais do que qualquer outro puxa pelo mais popular e genuíno do futebol português, um jogo que tentamos viver sem filtros, desde o relvado, passando pelas bancadas, e chegando a qualquer ecrã ou mesa de café; é esta a essência de um … Benfica x Sporting!

Aqui joga-se o orgulho próprio de cada um de nós, o conceito de rivalidade ganha uma outra dimensão, neste caso não são apenas duas equipas da mesma cidade a disputar um jogo de futebol. Uma das frases mais repetidas num derby lisboeta é «Lisboa é nossa», o pesado mas excitante significado desta frase deixa por si só uma amostra da forma intensa com que um Benfica x Sporting é jogado. 

Deste jogo fazem parte momentos eternos da história do futebol nacional; mais do que óbvio para qualquer benfiquista recordar de imediato os 6-3 em Alvalade com aquela exibição soberba e hat-trick do João Pinto, eliminatórias de Taça que perduraram nas nossas memórias, reviravoltas dignas do maior dos golpes de teatro, ou então golos de antologia que fazem valer o preço de um bilhete, como aquele que o Lima marcou em 2013 depois de jogada soberba do Gaitán; ou seja, mais do que momentos e até estatísticas o derby da capital é um confluir de tudo aquilo que torna o futebol apaixonadamente irracional. É verdade que ao longo dos anos também já passámos por momentos de agonia e tristeza na história deste jogo, alguns que até nos levaram ás lágrimas, mas sabem que mais? Foram no peso desses momentos que vemos a força que temos, pois aqui a verdade é só uma … num derby mais do que em qualquer outro jogo.

Quem tem por hábito ler estes textos que escrevo, sabe que há uma expressão que usso muito, «a titulo pessoal», ora neste contexto creio que encaixa perfeitamente, porquê? Não apenas pelo facto de cada um de nós ter a sua forma de viver o derby, mas essencialmente porque tudo o que o rodeia, torna tudo demasiado pessoal para ser vivido como um jogo de futebol dito normal; cada um de nós seja adepto de estádio ou não tem uma história para contar, um melhor amigo rival, um familiar que equipa da outra cor, e até mesmo as amizades ficam por instantes interrompidas quando a bola rola num derby (sem exageros claro), mas naqueles 90 minutos nada mais importa do que defender a nossa cor e a nossa cidade. Mesmo não sendo lisboeta, sinto que boa parte do meu coração é lá que mora, pois é ali que está o Benfica, tanto que em dia de derby é com um carregado orgulho que canto o «cheira bem bem, cheira a Lisboa», que é como quem diz, cheira a Benfica; isto para dizer que o tal sentimento de pertença falado ao começo deste texto, e extensível a todo o local onde houver um Benfiquista, sim é verdade que o Benfica é do mundo, mas é também Lisboa que é levada ás bocas do mundo nesse dia.

Que derby tão do povo … tão bom olhar para o passado e ver que nem sempre de clubite aguda se fez a história deste derby, melhor ainda perceber que mesmo os nossos avós viviam e nos ensinaram uma sã rivalidade, que fez deste jogo o que ele é hoje; os que ao longo dos anos foram escrevendo a história do Benfica x Sporting, são aqueles que mesmo já não estando cá alguns, criaram a mais edílica e vincada rivalidade do nosso futebol que nasceu, cresceu e vive dentro das 4 linhas. Não há como negar, derby é derby!

Benfica x Sporting … um jogo que desperta o mais adormecido dos adeptos, que faz uma pessoa fazer um esforço ainda maior para ir á bola. Diz a música «Lisboa menina e moça», em dia de derby, Lisboa é uma rejubilante senhora. E mesmo os ases do passado vivem neste derby, porquê a frase com que termino este texto explica-o … 

 “Hoje há derby no céu. Bento, Eusébio, Águas, Cavém e Torres de um lado. 5 violinos e Damas do outro. Relato de Jorge Perestrelo com comentários de Artur Agostinho. Guttman gesticula de um lado, Szabo ordena do outro. É este o eterno derby do futebol.” 

Eterno derby … Eterna Lisboa!

 

António Vieira

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