” Eu fui o Eusébio “

Queres mesmo?
– Sim, claro, por favor.
– E queres ficar sozinho?
– Sim.
– Queres algo para comer? Posso fazer algo, uns ovos, um pão com queijo, até fritar umas batatas.
– Não, quero sossego.
– E que ponha o aquecimento na sala?
– Não, não quero nada, já disse que não quero nada. Deixa-me lá, só te peço isso.
– É a que horas?
– Deve estar a começar, leva-me para a sala, a sério.
– Já disse que sim, estou só a terminar de fazer uma máquina.
– Leva-me, já! Qual é a tua? Mas hoje estás para me lixar a cabeça? Eu tinha treze anos, ‘mor. Treze anos! Jogámos a manhã toda, eu fiz de Eusébio, sabias? De Eusébio. Eu fui o Eusébio. Lembras-te do Carlos? O Carlos fez de Torres, o gordo do escritório de Simões e o Germano do talho fez de Germano. Ganhámos 9 a 5 aos da rua da farmácia. Eu tinha 13 anos. Era tão feliz. Passava os dias a jogar. E a rir. Comecei a trabalhar no ano seguinte, conheci-te quatro anos depois, fiquei cego passados cinco anos. Exactamente cinco anos depois daquele dia. ‘Mor, lembro-me de todas as arrancadas desse jogo, de todas as fintas, de todas as defesas, dos golos, ah, os golos. ‘Mor, não me tires o jogo, por favor. Leva-me para a sala e liga o rádio. Agora!
– OK, querido, já percebi. E queres comer qualquer coisinha?
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Cinco anos sem Eusébio. Cinco anos em que todos temos de continuar a ser o Benfica.

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