“Fresh air”

 

Depois de um ano fantástico que entusiasmou tanto os benfiquistas, este, veio a revelar-se como uma época traumática na história do Benfica. Uma época traumática porque se perdeu o campeonato quando este parecia garantido à partida. Lembremo-nos de como o Estádio dos Barreiros virou um Marquês de Pombal antecipado. Três semanas depois encontrávamo-nos “de joelhos” vergados em todas as finais.

Não só pelos maus motivos se tornou histórico esse ano. Eu, que atualmente me encontro com 23 Invernos passados, vi pela primeira vez um Benfica europeu atrevido, que alimentou todos os meus sonhos e esperanças de voltar a ver um “gigante” renascer das cinzas.

Amsterdam ArenA, 15 de maio 2013, lembro-me perfeitamente de estar numa das muitas casas do Benfica deste país. Gritar aquele golo do Cardozo no penalti como nunca. Gritei eu e 6 milhões, e tanto se festejou que o autor do tento ate se ressentiu no pé esquerdo. Após isso vi, mais uma vez, a nossa justiça ser levada, também pelo infortúnio. Assisti, fiquei triste, mas nunca aquele momento me atirou ao chão. Nunca o meu Benfiquismo se deixou apagar, nem ali nem, no Jamor, nem no Dragão. E se a final da taça me deixou até certo ponto de cabeça quente, encaro-o hoje, como uma demonstração que apenas ficamos alterados e consternados quando uma coisa nos afeta, e se algo nos afeta é porque temos sentimentos por ela. As hormonas fluem, a temperatura sobe, o olhar fica cerrado, e por vezes a desilusão instala se.

Não querendo mais voltar ao passado, faço uma comparação desse tempo, ao que sou hoje e ao que hoje é/era o Benfica. Pela primeira vez na vida, tinha perdido o interesse em ver o Benfica. Não quer dizer que não visse os jogos e não tivesse esperança, mas aquelas hormonas que tanto efluíam em mim por uma derrota, deixaram de ser libertadas e o meu corpo esfriou-se.

Neste momento para além da minha pouca chama, e penso que não era o único, vi-a constantemente uma equipa que se encontrava numa consistência anímica pior. Pensei que algo pudesse mudar quando vi o Jonas a voltar a festejar golos com “o seu público” contra o Braga. Esse sol que apareceu, pareceu no fim de contas, ser de pouca luz. Possivelmente o Presidente terá visto apenas uma lanterna.
Refletindo sobre a minha opinião, esta sempre teve uma consistência:

“Por mim o Rui Vitoria enquanto ganhar tem lugar garantido, mas à primeira que perca tem que sair, pois não tem a nossa chama imensa que tanto nos aquece”.

Depois de um primeiro ano que me deixou empolgado, em que fomos uma verdadeira equipa, e conseguimos uma reta final de temporada de sonho, viu-se a partir daí, um “Ferrari” que ia acumulando mais problemas mecânicos. E mais. E mais. Ate que a caixa de velocidades empenou, sendo que apenas ao pontapé do Jonas, as velocidades iam mudando.
Passam dois anos e meio desde que vi o Benfica jogar à bola pela última vez.

Lembro-me perfeitamente. Um grande colega meu fazia anos e eu dividi o meu tempo entre uma cozinha em festa, e um quarto com a tv ligada. A cozinha repleta de entusiasmados em nada contrastava com aquela noite na luz. O resultado, foi o menos importante no meio daquilo tudo. O Benfica tinha empatado 2-2 com o Bayern, mas tinha-me conseguido prender aquele televisor. Aquele golo do Talisca, apesar de inconsequente, gerou em mim uma alegria imensa. Merecíamos aquele golo e possivelmente merecíamos mais. Tínhamos caído de pé, mas ainda assim caído.
Outra data importante foi 27/09/2017, dia de jogo na Suíça, para a competição mais importante de futebol no que diz respeito a clubes de clubes. Meus amigos, vi uma exibição irrisória. Uma história digna de aparecer em livros de comédias da bola. Não só tínhamos sido atropelados por um “portento gigante europeu” chamado Basileia, como tínhamos o nosso treinador, o nosso chefe de fila, a desculpar-se com mais um discurso que acabou por nos habituar. Para não me alongar muito, direi que foi mais um discurso humilde. Demasiado humilde.

Pegando na imagem, esta trata-se do filme “2012”, e este trata-se do momento, a hora, em que os cidadãos de uma “nova terra”, devastada anteriormente por um grande cataclismo, são pela primeira vez congratulados com a possibilidade se sair da “nave”. O momento em que se respirou ar fresco de novo. O momento em que cada novo cidadão encheu os pulmões de ar e a sua cabeça de sonhos novamente. O dia em que cada um sentiu de novo o que é ter esperança de um futuro próspero depois da adversidade. Dia 3/1/2019, voltamos a respirar de novo finalmente.

“Dia 3/1/2019, voltamos a respirar de novo finalmente.”

Os nossos brônquios abertos voltam de novo a captar o oxigénio, que serve de combustível a esta labareda interior.
Não quero apenas responsabilizar Rui Vitoria pelo sucedido. Se os seus erros, tao evidentes, não foram notados por toda uma estrutura futebolística, quer dizer que toda esta estrutura é um erro. Não estou com isto a reivindicar uma mudança de direção, apesar de perceber que esta, perdeu muita forca recentemente, mas sim a pedir que algo mude.

Que sejamos todos mais ativos para o bem e que tenhamos de ser menos reativos. Reagir foi o necessário agora, visto que decidimos nunca agir quando o destino parecia traçado. Tal como as nossas exibições, à lei do menor esforço, as nossas decisões. Por isso, se queremos voltar a ter finais europeias, por muito que perdidas, se queremos voltar a tentar grandes jogos na Champions, por muito que percamos, temos de ter uma atitude diferente, e com custo talvez um dia acabemos mesmo por ganhar e quebrar uma maldição tão antiga.

“Que sejamos todos mais ativos para o bem”

Não há que temer adversários. Chega de respeitar em demasia! Somos o Benfica!!!! Não à prepotência, mas sim ao orgulho. O orgulho Benfiquista. O orgulho de uma camisola que já vestiu Eusébio, Chalana, Rui Costa, Pablo Aimar e muitos outros. Que esta chame nunca se apague de novo, e se para isso for preciso umas corridas olímpicas, que esta tocha seja acendida. Que os Grimaldos desta vida, que os Jonas deste mundo e todos os outros voltem a pegar nas armas e as apontem sem medo à baliza contraria. Sim, é para atirar e para “matar”, sem dúvidas que, por muito que não corra bem, tentou se.

“Chega de respeitar em demasia! Somos o Benfica!!!!”

Hoje em dia já não se tentava, e por isso, ambiciono por um treinador com um discurso coerente e ciente que chegou ao maior clube Português e um dos mais históricos do mundo. Que volte a encarar os desafios sem medo, e que jogue à bola, como na final de Amsterdão, ou como na vez que eliminamos, mais uma vez, o Fenerbahçe e chegamos aquela final com um bis do Cardozo.

” Que volte a encarar os desafios sem medo” 

Por mais dias assim o Benfica existe e nós cá estamos. Que ninguém duvide, que o Benfica existirá para sempre enquanto cada um de nós tiver uma chama imensa, e por muito que a nossa chama um dia apague, muitos outros a acenderão para assistir a mais dias Gloriosos do nosso Benfica.

 

-> Este trata se do meu primeiro texto e desde já peco desculpa pelo seu número de caracteres exagerado, mas por vezes é difícil expor ideias complexas em poucas palavras.

“E vós ó rapazes com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!”

Pedro Caetano
4/1/2019

 

Comentários