“Nas Asas de um Projeto”

 

Na última temporada de Jorge Jesus no Benfica muito se falou da “estrutura” que ao longo da década anterior tinha sido instalada no nosso clube. Uma organização profissional, liderada pelo nosso presidente Luís Filipe Vieira, responsável por assegurar que equipa técnica e jogadores tinham ao seu dispor todas as condições que necessitavam para maximizarem o seu potencial. Uma estrutura a quem a comunicação social e alguns adeptos, por arrasto, atribuíam parte considerável dos louros das conquistas que alcançávamos em campo, sendo que chegámos mesmo a ouvir um discurso semelhante da boca do nosso presidente.

 

 

 

 

Com a chegada de Rui Vitória o discurso mudou. A “estrutura” deu lugar ao “projeto”. Aliás, Rui Vitória foi apresentado como o treinador disso mesmo, o treinador do “projeto”. O treinador que iria dar aos Bernados Silva e Joões Cancelo da nossa academia a oportunidade de singrarem de águia ao peito e de, com eles, conquistarmos aquele que é, de há 50 anos para cá, o sonho de qualquer benfiquista: ser campeão europeu pela 3ª vez. É este o projeto que, na pessoa do nosso presidente, nos é apresentado.

Os benfiquistas parecem identificar-se com esta visão. Tem sido grande o apoio dos adeptos aos “miúdos” made in Seixal que dão os primeiros passos com o manto sagrado. Nutrimos por eles um carinho espontâneo porque os vemos como um de nós e de cada vez que tocam na bola algures na nossa alma brilha uma chama imensa de esperança num futuro glorioso, uma nova página dourada escrita com os pés daqueles que junto de nós vimos crescer. Tudo isto é um sonho, mas que no Benfica é mais do que isso. É um objetivo assumido pelo presidente. E, como tal, desde a chegada de Rui Vitória que temos tentado trabalhar nesse sentido. E é deste trabalho e das opções que são tomadas que nascem muitas incongruências na opinião de alguns adeptos e germinam diversas divisões populares sobre este assunto.

 

 

Em tempos de vitórias, o mundo é cor de rosa. Tudo aquilo que fazemos está certo e é mérito nosso. No tricampeonato, por exemplo. Conquistámos um título que parecia perdido e acabámos a época com Ederson Moraes, Victor Lindelof e Renato Sanches a titulares. Elogiámos o talento dos miúdos e a coragem do treinador para apostar neles. Entoámos com orgulho que aquela foi uma vitória da união e do caráter. Ouvimos com um sorriso o nosso presidente dizer que a coluna vertebral do futuro do Benfica está no Seixal e que as alternativas aos craques que vendemos estão identificadas e têm esse carimbo. Até que eventualmente chegou a época em que o Pedro Pereira não foi capaz de substituir o Nélson Semedo, o Bruno Varela não se revelou à altura do Ederson e o Diogo Gonçalves não pareceu ser capaz de fazer a diferença. E é aqui que tudo é posto em causa. O treinador que era do “projeto” passou a ser professor, a confiança nos reforços do Seixal foi substituída pela exigência por nomes de peso que deem “garantias” e o sonho do título europeu a longo prazo foi trocado pela ânsia do penta.

 

 

E a pergunta que se exige então é: que Benfica queremos nós? O Benfica do projeto europeu a longo prazo ou o Benfica da luta pela hegemonia nacional ano a ano que tínhamos com Jorge Jesus? O treinador pode mudar, a aposta nalguns jogadores pode não dar certo, mas se estamos realmente comprometidos com este projeto então o desnorte que vemos na comunicação social, redes sociais ou na rua, nas conversas com amigos, não pode existir. Se escolhemos o projeto europeu não pode haver cá exigências de nomes sonantes para o lugar dos “miúdos” da formação. Se escolhemos o projeto europeu os campeonatos ano após ano são objetivos, mas a construção dessa equipa para o futuro e o desenvolvimento e crescimento destes “miúdos” são mais importantes. Se escolhemos o projeto europeu podemos trocar de treinador, mas fazemo-lo por uma questão de competência. Não porque numa semana ganhamos ao Porto e está tudo bem e na seguinte perdemos com o Moreirense e já está tudo mal. A competência não desaparece de um dia para o outro, ou está lá ou simplesmente não existe. São estas flutuações de humor e de convicções que num projeto desta envergadura não podem existir. E certo ou não na decisão de manter Rui Vitória, tenho que elogiar a firmeza e a coerência que Luís Filipe Vieira tem mantido sobre tudo isto. O projeto está acima dos resultados dos fins de semana. Queremos ganhar no presente, mas de olhos postos no futuro. E em todas as suas decisões temo-lo visto fiel a essa posição, não se deixando abalar mesmo quando muitos colocam o seu cargo em causa.

Para concluir, acho importante fazer uma síntese das ideias chave deste artigo. Em primeiro lugar, dizer que acredito no projeto que esta direção propõe para o clube. Em segundo lugar, lembrar que queremos ganhar no presente preparando o futuro e que por vezes o melhor dos dois mundos não se concretiza. E finalmente defender que se mudarmos de treinador devemos fazê-lo por entendermos que Rui Vitória não está mais à altura deste projeto e que existem alternativas às quais reconhecemos capacidade e qualidade para o fazer. Seja como for, é fundamental garantir a continuidade dos nossos jovens talentos no plantel para que deles consigamos retirar o devido rendimento desportivo. Os erros cometidos com a venda do Ederson, Nélson Semedo e Renato Sanches (talvez por motivos financeiros e vontade dos jogadores em sair) parecem não se ir repetir com Rúben Dias, Gedson Fernandes ou João Félix. Segundo o nosso presidente, estamos já numa fase de «reter talento» e isso são bons sinais para o futuro.

 

(  Mário Wilson – O Velho Capitão > Livro ) 

 

Que o novo ano e que os outros que o sucedem nos tragam muitas conquistas e razões para sorrir. Como disse em tempos o saudoso Mário Wilson: “Por muitos desgostos que possamos ter, valores mais altos se levantam. E o valor mais alto que se levanta em termos futebolísticos, chama-se Benfica.”

Ricardo Magalhães

 

( Fotos SLBenfica )

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