“O ano é novo, mas o Benfica de Vieira e Vitória não muda”

Chegou um novo ano em nosso calendário. Esta passagem traz consigo a renovação da esperança, o desejo por mais conquistas e os pedidos de força para superar as adversidades. Mas, já dizia o poeta modernista brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), o ano só será realmente novo se nós o fizermos assim. Aparentemente, e infelizmente, quem administra o Sport Lisboa e Benfica não anda merecendo vida nova. Os erros na gestão do grupo e no planejamento para as partidas são evidentes e se repetem rodada a rodada. Por outro lado, os responsáveis por esta situação não parecem dispostos a admitir as falhas e corrigí-las.

 

“o ano só será realmente novo se nós o fizermos assim”

 

A primeira partida de 2019 reservou aos Encarnados uma amarga derrota de 2 a 0 para o Portimonense, em Portimão, com gols contra dos zagueiros Rúben Dias e Jardel. Foi um resultado cruel para as pretensões dos comandados de Rui Vitória, que querem recuperar a hegemonia doméstica depois do vice-campeonato insosso da última temporada. Mais do que isso: viu-se um time idêntico ao dos compromissos anteriores. O SLB há muito tempo – muito mesmo, desde a reta final do ano do Tetra, 2017, assim podemos dizer – é uma equipe carente de ideias e muito dependente da individualidade dos seus jogadores. Vive de chutões para a frente e de cruzamentos para a área, costuma deixar espaços para as investidas dos oponentes e não se mostra reativo quando sofre gol. O desfecho desta vez foi negativo, porém a atuação foi tão ruim quanto a de jogos passados. A diferença é que agora o escrete lisboeta encarou um adversário o qual se planejou bem para o duelo e soube explorar os defeitos das Águias durante os 90 minutos. Não fossem as brilhantes intervenções do goleiro Odysseas Vlachodimos, o placar teria sido mais elástico… Do ponto de vista da estatística, aconteceu um feito histórico: o Portimonense venceu o Benfica pela primeira vez.

 

“Do ponto de vista da estatística, aconteceu um feito histórico: o Portimonense venceu o Benfica pela primeira vez.”

 

Verdade seja dita: o Maior de Portugal não joga um futebol à altura do peso de seu elenco. Como pode um time com Odysseas Vlachodimos, Mile Svilar, Rúben Dias, Jardel, Grimaldo, André Almeida, Conti e Corchia viver batendo cabeça na defesa? Como pode um time com Fejsa, Alfa Semedo, Samaris, Gedson, João Félix, Krovinovic, Zivkovic, Salvio, Pizzi, Cervi, Rafa Silva e Gabriel ter tantos problemas para efetuar a transição? Como pode um time com Jonas, Facundo Ferreyra, Nico Castillo e Seferovic precisar de um parto para fazer gol? Como pode um time com tantos jogadores qualificados não se firmar nos cenários nacional e internacional?

 

 

Passadas 15 rodadas da I Liga, o maior campeão português soma 32 pontos (10 vitórias, 2 empates e 3 derrotas), sua pior marca nos últimos 10 anos. No mesmo período de 2009/2010, com o espanhol Quique Flores no comando, foram 30 pontos (8 vitórias, 6 empates e 1 derrota). Na Liga dos Campeões da Europa, o bicampeão continental acumulou apenas 7 pontos (2 vitórias, 1 empate e 3 derrotas). Não foi páreo para Bayern de Munique e Ajax – os únicos triunfos vieram contra o AEK Atenas, que não somou nenhum ponto no certame – e teve de se contentar com a transferência à Liga Europa, onde tem pela frente o Galatasaray, nos 16 avos de final. Na Taça de Portugal, o Glorioso penou para passar por Arouca (II Liga, ou seja, 2ª divisão) e Montalegre (Campeonato de Portugal, ou seja, 3ª divisão). Agora vai encarar um desafio bem maior do que os anteriores: o Vitória de Guimarães, tradicional pedra no sapato do Trio de Ferro de Portugal, fora de casa. Na Taça da Liga, o Benfica fez 7 pontos (2 vitórias, 1 empate e 0 derrota) e liderou o grupo com Desportivo das Aves (I Liga), Paços de Ferreira (II Liga) e Rio Ave (I Liga). Contudo, o técnico Rui Vitória protagonizou uma pérola imperdoável depois do empate em 1 a 1, na Vila das Aves, com o Desportivo das Aves, resultado o qual assegurou a classificação à semifinal, onde o SLB medirá forças com o rival Porto, em Braga: “Se houvesse necessidade de vencer, teríamos outra abordagem”. Ora essa, quem ele pensa que treina?! Um clube da grandeza do Benfica sempre deve ter a vitória em mente! Uma declaração absurda como esta já seria motivo suficiente para demissão… Desrespeitar a mística e a história da camisa mais pesada do futebol português é mais grave do que perder qualquer partida.

 

“Se houvesse necessidade de vencer, teríamos outra abordagem”

 

Pois bem, os responsáveis por tamanhas decepções ao longo da época 2018/2019 nós sabemos quem são. Eles atendem pelos nomes de Luís Filipe Vieira e Rui Vitória. O presidente peca por omissão e totalitarismo. Raramente aparece nos momentos de instabilidade. Quando apareceu, após a humilhante goleada de 5 a 1 para o Bayern na Alemanha, agiu da pior forma possível: contrariou a opinião do corpo diretivo e, mesmo com a terrível fase, bancou a permanência do treinador. Este, por sua vez, peca em diversos aspectos: não faz rodízio na escalação de um plantel com quatro competições em disputa, escanteia jogadores os quais mereciam mais oportunidades, sobrecarrega outros, tem péssima leitura de jogo, relativiza as atuações ruins e acredita ainda merecer treinar o Glorioso. Antes bicampeão nacional e campeão da Taça de Portugal com a base do seu antecessor, Jorge Jesus, Rui Vitória dispõe de muitas caras novas atualmente. Entretanto, não consegue deixar uma marca positiva no grupo. Em paralelo ao caos, o mandatário faz vista grossa. Pior para o clube e pior para os adeptos.

 

“Em paralelo ao caos, o mandatário faz vista grossa.”

 

Em suma, as mentalidades dos “cabeças” da direção e da área técnica não combinam com o impacto social, cultural e desportivo provocado pelo Sport Lisboa e Benfica em Portugal e no planeta. Mais do que maus resultados em campo, os Encarnados estão passando por uma profunda crise de identidade. A equipe que encanta as massas nunca mais foi vista. Ir ao estádio, ligar a televisão ou escutar o rádio para acompanhar um jogo do Benfica hoje é motivo de desilusão e raiva, não de felicidade. Mas este não é o Benfica que conquistou o nosso coração – desse temos saudades. Este é o Benfica de Vieira e Vitória. O método desta dupla segue ultrapassado em meio ao Ano Novo e continua a nos deixar impacientes. Com a palavra, Drummond de Andrade, em Receita de Ano Novo: “Para ganhar um Ano Novo / Que mereça este nome, / Você, meu caro, tem de merecê-lo, / Tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, / Mas tente, experimente, consciente. / É dentro de você que o Ano Novo / Cochila e espera desde sempre”.

Crédito da imagem: Divulgação/SL Benfica

Luís Francisco Prates é jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e autor do livro-reportagem “Clube Náutico Capibaribe: Vermelho de Luta, Branco de Paz”. Foi blogueiro do Sport Lisboa e Benfica no portal ESPN FC Brasil.

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